Por: Paulo Roberto Alonso e Daniel Amin Ferraz (2025)
Especialistas alertam que o país tem condições naturais de sobra para se tornar um hub de infraestrutura digital, mas perde espaço no cenário global devido à insegurança jurídica e à falta de um plano nacional integrado.
O Brasil possui uma das matrizes elétricas mais limpas do mundo, um mercado consumidor gigantesco e uma posição geográfica privilegiada. Em tese, o país reúne todos os ingredientes para se tornar um polo sul-americano de data centers — as “fábricas” da economia digital que processam e armazenam os dados que movimentam desde o streaming e a inteligência artificial até os serviços bancários e o governo eletrônico.
Mas, na prática, uma barreira regulatória e energética tem travado esse potencial. Em um artigo aprofundado, os especialistas Paulo Roberto Alonso e Daniel Amin Ferraz, da Alesfe, dissecam os desafios que tornam o Brasil menos competitivo na corrida global pela infraestrutura digital.
O Paradoxo Brasileiro: Vantagens Naturais vs. Fragilidade Estrutural
Enquanto países como os Estados Unidos, nações nórdicas e vizinhos latino-americanos estruturam políticas agressivas para atrair os hiperscaladores (gigantes da tecnologia como Google, Amazon e Microsoft), o Brasil ainda opera com um modelo de “remendos”. As regras para a instalação e operação dessas estruturas estão dispersas em legislações de telecomunicações, energia, meio ambiente e proteção de dados, sem qualquer coordenação entre si.
“Essa dispersão regulatória dificulta o enquadramento dos empreendimentos, aumenta a complexidade das licenças e gera uma incerteza interpretativa que afugenta o investidor de longo prazo”, explicam os autores.
A Matriz Energética: Nosso Maior Trunfo (e Seu Maior Desafio)
A abundância de energia renovável (hídrica, eólica e solar) é, sem dúvida, o principal atrativo para o setor. Empresas de tecnologia buscam desesperadamente reduzir sua pegada de carbono, e uma infraestrutura alimentada por fontes limpas é um diferencial competitivo brutal.
No entanto, os autores fazem um alerta crucial: a intermitência dessas fontes e a necessidade de fornecimento ininterrupto de energia (24/7) exigem um planejamento energético sofisticado que o Brasil ainda não oferece de forma estruturada. A questão vai além da conta de luz: envolve a confiabilidade da rede, a necessidade de fontes de backup e, principalmente, a sustentabilidade hídrica para sistemas de resfriamento.
O Custo da Inércia: O que Está em Jogo?
Sem um marco legal específico que trate os data centers como infraestrutura crítica, o Brasil patina em aspectos fundamentais:
Insegurança Jurídica: Investidores não têm previsibilidade sobre regras fiscais, ambientais e de operação.
Falta de Incentivos Coordenados: Enquanto isso, outros países oferecem pacotes estruturados de benefícios e segurança, desviando investimentos que poderiam vir para o Brasil.
Sobrecarga Regulatória: A complexidade para obter licenças em diferentes órgãos torna o ambiente de negócios menos ágil do que o dos concorrentes globais.
A Saída: Um Novo Olhar sobre a Infraestrutura
Para Alonso e Ferraz, a solução passa por enxergar os data centers não apenas como “galpões de computadores”, mas como o coração da nova economia. Eles defendem a criação de um marco regulatório específico e integrado, que conecte as políticas de energia, meio ambiente e transformação digital.
“É preciso incorporar a sustentabilidade energética e hídrica de forma explícita na regulação, garantindo que a expansão digital do país ocorra com segurança operacional e responsabilidade ambiental”, concluem.
O recado do artigo é claro: o Brasil tem a matéria-prima (energia limpa) e o mercado. Falta agora a engenharia institucional para transformar esse potencial latente em realidade, sob o risco de ver a próxima revolução digital passar longe dos seus domínios.
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