Por: Pedro Duarte Blanco (2025)
Um estudo recente do consultor do Senado Pedro Duarte analisa as mudanças no uso da palavra no Plenário do Senado Federal entre 2007 e 2024, apontando a progressiva substituição do debate parlamentar por discursos voltados à comunicação política e ao público externo.
Ao examinar quase duas décadas de pronunciamentos em plenário, o artigo “Plenário, Palanque, Estúdio” discute como o espaço tradicional de deliberação do Senado passou por uma transformação gradual em sua função política. Um dos eixos centrais da análise é a mudança no papel do plenário, que deixou de ser o principal ambiente de confronto direto de ideias entre parlamentares para assumir, em muitos momentos, a função de vitrine de posicionamentos públicos.
Outro ponto de discussão relevante é a redução do diálogo entre senadores, evidenciada pela queda expressiva no uso dos apartes. Instrumento clássico de interação parlamentar, o aparte permitia intervenções imediatas, concordâncias, discordâncias e esclarecimentos durante os discursos. A diminuição dessa prática sinaliza o enfraquecimento do caráter dialógico do plenário e a consolidação de falas mais individualizadas e menos abertas à interlocução.
O artigo também relaciona essas transformações às mudanças na rotina institucional do Senado. Ao longo do período analisado, houve reorganização da agenda legislativa, maior pressão por produtividade e fortalecimento do papel das comissões e das votações formais. Nesse contexto, o uso da palavra em plenário passou a ser mais estratégico, com discursos mais curtos, planejados e direcionados ao registro audiovisual, muitas vezes pensados para repercussão fora do Parlamento.
A análise dedica atenção especial ao impacto das transformações tecnológicas e comunicacionais, sobretudo à expansão das redes sociais. Segundo o estudo, o crescimento da comunicação digital incentivou a produção de discursos com formato mais adequado à circulação online, aproximando o plenário de um espaço de gravação e difusão de mensagens políticas, em detrimento do debate entre pares.
A pandemia de Covid-19 aparece como um fator que acelerou tendências já em curso. A adoção de sessões remotas e pronunciamentos por vídeo reduziu ainda mais a interação presencial e contribuiu para a consolidação de falas menos espontâneas e menos sujeitas à intervenção de outros parlamentares. O artigo destaca, contudo, que essas mudanças não devem ser interpretadas apenas como fenômeno conjuntural, mas como parte de uma transformação estrutural do funcionamento do plenário.
Apesar do quadro geral de retração do diálogo, o estudo discute diferenças importantes relacionadas às bancadas e ao gênero. A atuação da bancada feminina se destaca pelo uso mais articulado dos apartes e por estratégias coletivas de intervenção em plenário, sugerindo que formas específicas de organização política podem mitigar, em alguma medida, a perda do caráter deliberativo do espaço.
Ao articular esses diferentes tópicos de discussão, o artigo contribui para o debate sobre os desafios contemporâneos da deliberação parlamentar e sobre os efeitos das mudanças institucionais, tecnológicas e comunicacionais na democracia representativa. A análise do uso da palavra no plenário revela, assim, não apenas uma mudança de formato discursivo, mas uma transformação mais ampla no papel político do Legislativo.
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