As mentiras e a sinceridade de Trump

Fiquei preocupado com a operação militar na Venezuela e, mais ainda, com as ameaças veladas de Trump a países desobedientes (e democráticos) como Colômbia, México e Dinamarca/Groenlândia.

O único detalhe positivo do evento foi a sinceridade do Proto-imperador em suas declarações após o sequestro de Maduro. Trump, de tão empolgado, esqueceu que estava fingindo combater o narcotráfico e defender a democracia. Ele tirou a máscara de benfeitor e se exibiu como é. Egocêntrico, inescrupuloso e despreparado.

Trump comemorou prematuramente o roubo do petróleo da Venezuela a despeito de não ter conseguido ainda a mudança de regime. E declarou que vai comandar o país, como se tivesse feito a aquisição hostil de uma empresa.

A sinceridade de Trump, talvez fruto do entusiasmo, é importante. Cazuza dizia que mentiras sinceras lhe interessam — tal é o caso dos extremista. Eles precisam de mentiras para viver no mundo paralelo.

As chances do Proto-imperador tomar o petróleo seriam maiores se ele tivesse mentido no discurso da “vitória militar”. Trump foi cínico e tirou o pouco verniz civilizatório da agressão militar.

Um discurso do tipo “sou um defensor da liberdade dos venezuelanos e inimigo dos traficantes” teria soado muito melhor do que “sou um ladrão de petróleo e quem manda na Venezuela sou eu”.

A intervenção americana não foi concluída. A  Venezuela não foi ocupada, nem um governo fantoche tomou o poder. Os ianques tampouco conseguiram enfiar o país em guerra civil, o resultado típico de suas intervenções militares.

A mudança de regime vai demandar tempo e  dinheiro. Ela precisa ser “vendida” nos EUA e na Venezuela. A venda da intervenção militar ficou mais difícil após o sincericídio de Trump.

Senão, vejamos. Os militares venezuelanos devem ter ficado indignados com o cinismo de Trump. Maria Corina e demais extremistas defensores de Trump foram desmoralizados. Os jornais estão criticando mais do que aplaudindo a operação militar americana.

Segundo Jeffrey Sachs,  a imprensa não discute as intervenções americanas, ela faz “relações públicas” delas. Os jornais demonizam os líderes dos países invadidos e colocam os americanos no papel de justiceiros. Mas a sinceridade de Trump tornou quase impossível alegar intenções nobres para a operação militar.

O Nobel de Economia Paul Krugman escreveu ontem que a operação militar americana não seguiu o figurino da doutrina Monroe: “Trump não estava buscando uma mudança de regime, pelo menos não de forma fundamental. Ele é mais como um chefe da máfia tentando expandir seu território…”

A grande contribuição do governo Trump-2 está sendo tirar a máscara de justiceiro do tio Sam. Para o bem ou para o mal,  Donald Trump acabou de vez com a grande hipocrisia americana.

Petronio Filho

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O Alarmismo Fiscal da Faria Lima

No artigo “Risco Fiscal e Cegueira da Política”, Estadão, 27/10/25, o ex-presidente do Banco Central Gustavo Loyola acusou a Constituição de 1988 de ser “a gênese dos problemas fiscais”. A Carta Magna teria sido “pródiga na criação de direitos onerosos”. 

Pouco importa que a Constituição tenha sido redigida por uma Assembleia Nacional Constituinte e expresse a vontade do povo brasileiro. Ela não serve para a Faria Lima. Talvez a próxima Constituição deva ser redigida pela diretoria do Banco Central.

Loyola vai além. Julga-se no direito de cobrar de Lula um “ajuste estrutural das contas públicas”, algo que Lula não prometeu em sua plataforma eleitoral. Loyola sinaliza quem deve pagar o preço. O “ajuste estrutural” vai exigir a revogação de “medidas populistas” como o reajuste do salário mínimo e cortes profundos nos gastos sociais. 

Tal “ajuste fiscal estrutural” seria na prática uma revogação dos “direitos onerosos” denunciados por Loyola e, portanto, uma desobediência à Constituição. 

Alguém precisa informar isso aos Ministros Fernando Haddad e Simone Tebet. Eles tentam vender a Lula o tal “ajuste fiscal estrutural”. Ou seja, Loyola & Cia à boca grande e Haddad e Tebet à boca pequena pedem que Lula traia a Constituição e traia seus eleitores para afastar o abominável “risco fiscal”. 

Ocorre, no entanto, que o “risco fiscal” denunciado por Loyola e economistas do mercado é algo subjetivo. Não é um dado econômico concreto. É o resultado das projeções dos sentimentos, desejos e preconceitos da Faria Lima. 

Os economistas do mercado formam um oráculo pouco confiável, algo que tem sido mostrado ano após ano. Eles erram 95% das projeções, mas não perdem prestígio com a mídia. Tampouco perdem a vaidade e a arrogância. Continuam se achando sábios. 

Loyola denuncia no artigo “pequenos e grandes assassinatos fiscais” que logo trarão “resultados macroeconômicos funestos”. Notaram a linguagem carregada e alarmista? Notaram o dom da profecia? Todos eles fazem isso. Ignoram o presente e projetam um futuro distópico (se o governo for de esquerda) ou utópico (se ele for de direita). 

O alarme fiscal de Loyola reflete o mundo real? Vejamos. O Brasil de Lula aumentou o crescimento econômico, reduziu a inflação, diminuiu a desigualdade e reduziu o desemprego a um mínimo histórico. E fez tudo isso cumprindo a meta do arcabouço fiscal. 

Como está a política fiscal do Brasil comparada com a do resto do mundo? Vou citar dados internacionais sobre o Déficit Primário do Governo Geral. Minha fonte é a última edição (15/10/25) do Monitor Fiscal do FMI. 

Resultado Primário do Governo Geral como percentagem do PIB em 2024:

Média Geral -3,5%,

Brasil -0,2%, 

Ásia -5,7%,

Europa -2,7%, 

G20 Emergente (inclui BRICS) -4,1%.

Os dados mostram que o Brasil é um exemplo internacional de austeridade fiscal, como diz André Roncaglia, representante brasileiro no FMI. Isso não é tão bom quanto parece. 

O conceito de resultado primário utilizado no Brasil é rigoroso demais, pois trata os investimentos do governo como despesa. Ele amarra as mãos do governo. O Brasil é pobre e precisa de investimentos para crescer. 

O Arcabouço Fiscal do Haddad procura atender ao lobby austericida da Faria Lima. Outra concessão foi a escolha da diretoria do Banco Central. O presidente do BC, Gabriel Galípolo, é mais altista de juros do que Campos Neto. Nem assim os farialimers ficaram satisfeitos. Vivem a atacar o governo Lula, exigindo mais cortes. 

O Boletim do Tesouro Nacional publica dados sobre o Resultado Primário do Governo Central. As médias anuais dos últimos governos, como percentual do PIB, foram: 

Lula 1 e Lula 2, 8 anos:  2,1%,

Dilma, 5 anos: 0,6%,

Temer, 3 anos: -2,1%,

Bolsonaro, 4 anos: -2,7%. 

É preciso fanatismo para examinar as estatísticas oficiais e não perceber que Lula e Dilma foram mais austeros do que Temer e Bolsonaro. Mas Gustavo Loyola conseguiu fisgar um ano isolado que confirma seus preconceitos. Em 2022, Bolsonaro obteve superávit primário do governo central de 0,5% do PIB. 

Aquele superávit foi criticado pelo TCU e pelo Ipea, entre outras instituições.  “Receitas extraordinárias mascararam deterioração estrutural”, Ministro Bruno Dantas (Acórdão 2.669/2023). “Gastos eleitoreiros foram financiados por receitas de petróleo, não por ajuste fiscal”, IPEA. 

Gustavo Loyola não é exceção. Pesquisas Genial/Quaest mostraram que 96% dos “analistas” da Faria Lima desaprovam Lula e 82% votaram em Bolsonaro. As concessões de Lula à Faria Lima me fazem lembrar a advertência de Churchill aos que tentaram acalmar Hitler: “O apaziguador é alguém que alimenta um crocodilo esperando ser devorado por último”.

Petronio Filho

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Foto Amanda Perobelli/Reuters via BBC

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21 de Setembro, Dia Inesquecível

O domingo nos presenteou com uma enorme manifestação democrática, com características diferentes das de 7 de setembro.

Sem financiamento dos ogros da agro, nem do PCC, nem da Faria Lima, nem das demais organizações de agiotas, sonegadores ou criminosos.

Sem pastores fakes que enriqueceram roubando dinheiro de pobre e pregando preconceito e ódio, o exato oposto dos ensinamentos de Cristo.

Sem moralistas fakes, que defendem ou ignoram os crimes dos poderosos, ao mesmo tempo em que caluniam e condenam por convicção os que lutam pela Democracia e justiça social.

Sem patriotas fakes levando a bandeira dos EUA e de Israel. Aliás, notei que a bandeira americana esteve ausente de todas as manifestações democráticas de hoje pelo Brasil afora. Não é um fenômeno brasileiro. É um fenômeno internacional.

Li há alguns dias no New York Times que ultimamente a bandeira americana só se faz presente no exterior em manifestações antidemocráticas. Isso reflete, segundo o jornal, a “mudança internacional na percepção do papel dos EUA”.

A mudança é mérito de vários presidentes, principalmente de Donald Trump. Ele está fazendo o trabalho que eu esperava dele. Ele praticamente destruiu a OTAN e conseguiu unir seus três mais formidáveis adversários, Rússia, China e Índia. Trump está destruindo a economia e as instituições democráticas, dinamitando a Educação e a Ciência, envenenando o país com desinformação. Ele está expulsando cérebros estrangeiros das fábricas e das universidades.

O ponto alto do domingo foi a manifestação de Copacabana liderada por octogenários de alta octanagem. Eles provaram que a vida produtiva do homem não termina aos oitenta.

Nunca despertei tão animado e tão otimista numa manhã de segunda-feira.

Enfim, foi o meu presente de aniversário, com um dia de atraso. Mais do que isso, foi um presente para o Brasil inteiro.

22/09/2025
Petronio Filho

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Foto Amanda Perobelli/Reuters via BBC

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O Verdadeiro Placar da Anistia

Por Petronio Portella Filho*

O Estadão foi cheerleader (animador de torcida) do impeachment da Dilma por conta das pedaladas fiscais. Ele até criou placar para incentivar adesões. Mas não fez o mesmo pelo impeachment de Jair Bolsonaro, que praticou crimes muito mais graves. No atual governo, o Estadão, retoma o papel de cheerleader para defender a anistia — na verdade, a impunidade dos golpistas do 8 de janeiro.

A reportagem “Placar da Anistia” é muito longa e deixa os resultados mais importantes para o final. No subtítulo do artigo se lê “atual número [de votos favoráveis] garante apresentação de requerimento de urgência para votação no plenário”.

O animador de torcida exagerou. Nada está garantido, nem mesmo o início da tramitação do projeto na Câmara. O Estadão esqueceu um detalhe. Antes da votação, o projeto precisa ser pautado pelo presidente da Câmara, Hugo Motta. Esse pequeno detalhe fez com que todos os 153 pedidos de impeachment de Bolsonaro fossem engavetados.

Além disso, o Placar favorável à anistia citado nas dez primeiras páginas se refere aos resultados de uma pergunta genérica:

“Você é a favor da concessão de anistia aos envolvidos nos atos de 8 de janeiro?”

Resultado: 193 deputados responderam sim e 126 não. Os votos a favor são muitos, mas estão aquém da maioria absoluta de 257 votos (exigida pela eventual derrubada do veto presidencial).

A pergunta menciona atos, não crimes. Alguns dos que votaram sim pretendiam talvez anistiar “velhinhas com a Bíblia na mão” — muito mencionadas nas redes sociais apesar de não terem sido fotografadas. A rejeição da proposta ficou muito clara quando a pergunta do Estadão incluiu Bolsonaro e demais líderes golpistas.

“Considera que a anistia deve atingir os denunciados pelo STF no processo que envolve o ex-presidente Jair Bolsonaro e outras 33 pessoas?”

Resultado: 119 votos sim e 173 votos não. O resultado está lá, com tabela e tudo, na terceira e última parte da longa reportagem. Esta é a pergunta importante, pois ela explicita os efeitos da eventual aprovação do PL 2858/2022 do Major Vitor Hugo – PL/GO.

O objetivo da campanha pela anistia é aprovar o PL de Vitor Hugo. Ele concede anistia para crimes políticos e eleitorais praticados desde 30/10/22, término do segundo turno.

O placar relativo a tal proposta obtido pelo animador de torcida — 119 sim e 173 não— não é, digamos assim, animador. Mas a manchete do Estadão induz leitores superficiais a pensar o contrário.

O PL da Anistia apoiado pela oposição não tem apoio popular, nem parlamentar e é inconstitucional. Para que virasse lei, ele teria que cumprir sete etapas:

1. ser pautado pelo Presidente da Câmara,

2. ser aprovado por maioria simples pelo plenário da Câmara, assegurado o quórum de 257 deputados,

3. ser pautado pelo Presidente do Senado,

4. ser aprovado pelo plenário do Senado por maioria simples, com quórum de 41 senadores,

5. ser sancionado pelo presidente da República, o que não deve acontecer. O PL deve ser vetado e retornar ao Congresso,

6. o veto do presidente precisa ser derrubado por pelo menos 257 votos de deputados e 41 votos de senadores.

7. por último, o Supremo precisa aceitar que o Poder Legislativo se tornou instância revisora do Poder Judiciário e não declará-lo inconstitucional. Tal aceitação contraria o princípio da separação e independência dos poderes, cláusula pétrea da Constituição Federal de 1988.

Aos que ainda não estiverem convencidos das chances remotas de aprovação do projeto pela Câmara dos Deputados, lembro que o presidente anterior, Arthur Lira, bolsonarista, teve a oportunidade de colocá-lo na pauta em 2022, 2023 e 2024, mas não o fez.

*Petronio Portella Filho é Consultor Legislativo do Senado Federal (aposentado)

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A Geopolítica da Paz, segundo Jeffrey Sachs

Por Petronio Portella Filho*

Discurso com esse título foi proferido no plenário da União Europeia em 19/02/25. Jeffrey Sachs foi consultor econômico de vários países do Leste Europeu, conversou com autoridades americanas, russas, ucranianas, etc. Ele enfatizou que seu depoimento não era baseado em ideologia, mas no que ele ouviu e testemunhou. É importante divulgar a mensagem de paz de Sachs, pois líderes europeus continuam presos a uma russofobia beligerante.

Segundo Sachs, após o desmembramento da URSS e a dissolução do Pacto de Varsóvia, os EUA se sentiram onipotentes. Deste então, foram eles os principais causadores de guerras:

“Não apenas a crise na Ucrânia — mas também a da Sérvia em 1999, as guerras no Oriente Médio, incluindo Iraque e Síria, as guerras na África, incluindo Sudão, Somália e Líbia — são, em grande parte, o resultado de políticas americanas profundamente equivocadas.”

No entanto, as intervenções americanas nunca são noticiadas como tais pela grande imprensa, que basicamente faz relações públicas das guerras americanas. O líder estrangeiro que os EUA querem derrubar — seja ele Saddam Hussein, Kadafi, Assad, Putin, etc. — é sempre demonizado pela imprensa. A única explicação dada aos leitores para o envolvimento dos EUA em guerras é que o país está combatendo um monstro, um novo Adolf Hitler.

Os jornais omitiram os antecedentes da guerra entre Rússia e Ucrânia. Quando a União Soviética foi dissolvida em 1991, foi firmado um acordo com os EUA que a OTAN não iria se expandir para o Leste Europeu. Em 1994, Clinton rompeu unilateralmente o acordo. Nas décadas seguintes, a OTAN, que é o braço armado dos EUA, se expandiu para o Leste, cercando a Rússia. Foram 13 países da região que aderiram à OTAN desde 1994. Quando os EUA
tentaram arregimentar Geórgia e Ucrânia, países vizinhos da Rússia, Putin finalmente reagiu.

A Guerra da Ucrânia ocorreu, portanto, no contexto da instalação de mísseis pela OTAN nas proximidades da Rússia. Putin havia manifestado várias vezes sua preocupação em ter mísseis da OTAN a sete minutos de Moscou. A invasão da Ucrânia não foi “unprovoked” (não provocada), como Joe Biden cansou de repetir. Sachs lembrou que, em 1962, quando a URSS botou mísseis em Cuba, por muito pouco não tivemos a Terceira Guerra Mundial.

A política de expansão da OTAN até a fronteira da Rússia foi seguida por todos os presidentes americanos de Clinton a Biden. Joe Biden foi o pior de todos. Sua política era provocar a Rússia ao máximo, militarmente e com sanções econômicas. Sachs acredita que Joe Biden não estava plenamente funcional. Sua política externa era controlada por neoconservadores (neocons), que traçavam a estratégia militar a partir de joguinhos de guerra.

“Eles jogam a teoria dos jogos não cooperativos, segundo a qual você não fala com a outra parte. Você simplesmente faz sua estratégia… Esse tipo de teoria dos jogos começou na Corporação RAND… Em 2019, há um artigo da RAND, “Extending Russia: Competing from Advantageous Ground”. Incrivelmente, o artigo, de domínio público, pergunta como os Estados Unidos deveriam irritar, antagonizar e enfraquecer a Rússia.”

Essa era literalmente a estratégia de Joe Biden: irritar a Rússia ao máximo até derrubar Putin. Donald Trump, por outro lado, está rompendo (tardiamente) com a OTAN, uma aliança militar que, segundo Sachs, deveria ter sido desfeita junto com o Pacto de Varsóvia em 1991.

No que diz respeito ao Oriente Médio, a política americana dos últimos trinta anos foi ditada por Benjamin Netanyahu. O lobby israelense tem enorme influência. Sachs teme que a influência do lobby destrua a política externa de Trump ou o povo palestino. A solução seria o reconhecimento de dois Estados, conforme a vontade de 185 países membros da ONU e a oposição de oito (Israel e Estados Unidos incluídos).

Sachs teve a ousadia de dizer que a política externa da Europa não existe. Se existe, ele não a percebe. Salvo a recusa de França e Alemanha em apoiar a guerra do Iraque em 2003, a política europeia do pós-Guerra tem sido fidelidade aos EUA. Agora que os europeus foram abandonados pelos americanos, o caminho a seguir é ter sua própria política externa, com gestores europeus. Afinal de contas, a Europa tem 450 milhões de habitantes e um PIB de 20 trilhões de dólares.

Além disso, a Europa defende muitas causas que os EUA não defendem, como a ação climática, a sustentabilidade, a social democracia, a igualdade, o multilateralismo e a Carta das Nações Unidas. Os Estados Unidos não defendem nenhuma dessas causas. Ele sugere que a Europa se afaste do belicismo americano e faça sua própria política. A acusação de que Vladimir Putin almeja anexar países europeus é, nas palavras de Sachs, infantil.

A economia russa e a europeia, além de vizinhas, são complementares. Ambas têm a lucrar com o comércio. O mesmo se pode dizer da China. Ela está sendo antagonizada pelos EUA por rivalidade, pois se tornou a maior potência econômica do mundo. Nas palavras de Sachs, “a China não é uma inimiga nem uma ameaça, é uma parceira natural da Europa no comércio e na preservação do meio ambiente global.”

Enfim, nem Rússia nem China são ameaças à Europa. A Rússia tem ótimos diplomatas e deveria ser tratada com diplomacia pela UE. O fim da guerra da Ucrânia e o fim da OTAN são boas notícias para a Europa, apesar da péssima reação de alguns líderes europeus.

*Petronio Portella Filho é Consultor Legislativo do Senado Federal (aposentado)

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