Plenário, Palanque, Estúdio: discursos no Plenário do Senado Federal entre 2007 e 2024

Por:  Pedro Duarte Blanco  (2025) 

Um estudo recente do consultor do Senado Pedro Duarte analisa as mudanças no uso da palavra no Plenário do Senado Federal entre 2007 e 2024, apontando a progressiva substituição do debate parlamentar por discursos voltados à comunicação política e ao público externo.

Ao examinar quase duas décadas de pronunciamentos em plenário, o artigo “Plenário, Palanque, Estúdio” discute como o espaço tradicional de deliberação do Senado passou por uma transformação gradual em sua função política. Um dos eixos centrais da análise é a mudança no papel do plenário, que deixou de ser o principal ambiente de confronto direto de ideias entre parlamentares para assumir, em muitos momentos, a função de vitrine de posicionamentos públicos.

Outro ponto de discussão relevante é a redução do diálogo entre senadores, evidenciada pela queda expressiva no uso dos apartes. Instrumento clássico de interação parlamentar, o aparte permitia intervenções imediatas, concordâncias, discordâncias e esclarecimentos durante os discursos. A diminuição dessa prática sinaliza o enfraquecimento do caráter dialógico do plenário e a consolidação de falas mais individualizadas e menos abertas à interlocução.

O artigo também relaciona essas transformações às mudanças na rotina institucional do Senado. Ao longo do período analisado, houve reorganização da agenda legislativa, maior pressão por produtividade e fortalecimento do papel das comissões e das votações formais. Nesse contexto, o uso da palavra em plenário passou a ser mais estratégico, com discursos mais curtos, planejados e direcionados ao registro audiovisual, muitas vezes pensados para repercussão fora do Parlamento.

A análise dedica atenção especial ao impacto das transformações tecnológicas e comunicacionais, sobretudo à expansão das redes sociais. Segundo o estudo, o crescimento da comunicação digital incentivou a produção de discursos com formato mais adequado à circulação online, aproximando o plenário de um espaço de gravação e difusão de mensagens políticas, em detrimento do debate entre pares.

A pandemia de Covid-19 aparece como um fator que acelerou tendências já em curso. A adoção de sessões remotas e pronunciamentos por vídeo reduziu ainda mais a interação presencial e contribuiu para a consolidação de falas menos espontâneas e menos sujeitas à intervenção de outros parlamentares. O artigo destaca, contudo, que essas mudanças não devem ser interpretadas apenas como fenômeno conjuntural, mas como parte de uma transformação estrutural do funcionamento do plenário.

Apesar do quadro geral de retração do diálogo, o estudo discute diferenças importantes relacionadas às bancadas e ao gênero. A atuação da bancada feminina se destaca pelo uso mais articulado dos apartes e por estratégias coletivas de intervenção em plenário, sugerindo que formas específicas de organização política podem mitigar, em alguma medida, a perda do caráter deliberativo do espaço.

Ao articular esses diferentes tópicos de discussão, o artigo contribui para o debate sobre os desafios contemporâneos da deliberação parlamentar e sobre os efeitos das mudanças institucionais, tecnológicas e comunicacionais na democracia representativa. A análise do uso da palavra no plenário revela, assim, não apenas uma mudança de formato discursivo, mas uma transformação mais ampla no papel político do Legislativo.

Para saber mais acesse: 

https://www12.senado.leg.br/publicacoes/estudos-legislativos/tipos-de-estudos/textos-para-discussao/td355/view

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As mentiras e a sinceridade de Trump

Fiquei preocupado com a operação militar na Venezuela e, mais ainda, com as ameaças veladas de Trump a países desobedientes (e democráticos) como Colômbia, México e Dinamarca/Groenlândia.

O único detalhe positivo do evento foi a sinceridade do Proto-imperador em suas declarações após o sequestro de Maduro. Trump, de tão empolgado, esqueceu que estava fingindo combater o narcotráfico e defender a democracia. Ele tirou a máscara de benfeitor e se exibiu como é. Egocêntrico, inescrupuloso e despreparado.

Trump comemorou prematuramente o roubo do petróleo da Venezuela a despeito de não ter conseguido ainda a mudança de regime. E declarou que vai comandar o país, como se tivesse feito a aquisição hostil de uma empresa.

A sinceridade de Trump, talvez fruto do entusiasmo, é importante. Cazuza dizia que mentiras sinceras lhe interessam — tal é o caso dos extremista. Eles precisam de mentiras para viver no mundo paralelo.

As chances do Proto-imperador tomar o petróleo seriam maiores se ele tivesse mentido no discurso da “vitória militar”. Trump foi cínico e tirou o pouco verniz civilizatório da agressão militar.

Um discurso do tipo “sou um defensor da liberdade dos venezuelanos e inimigo dos traficantes” teria soado muito melhor do que “sou um ladrão de petróleo e quem manda na Venezuela sou eu”.

A intervenção americana não foi concluída. A  Venezuela não foi ocupada, nem um governo fantoche tomou o poder. Os ianques tampouco conseguiram enfiar o país em guerra civil, o resultado típico de suas intervenções militares.

A mudança de regime vai demandar tempo e  dinheiro. Ela precisa ser “vendida” nos EUA e na Venezuela. A venda da intervenção militar ficou mais difícil após o sincericídio de Trump.

Senão, vejamos. Os militares venezuelanos devem ter ficado indignados com o cinismo de Trump. Maria Corina e demais extremistas defensores de Trump foram desmoralizados. Os jornais estão criticando mais do que aplaudindo a operação militar americana.

Segundo Jeffrey Sachs,  a imprensa não discute as intervenções americanas, ela faz “relações públicas” delas. Os jornais demonizam os líderes dos países invadidos e colocam os americanos no papel de justiceiros. Mas a sinceridade de Trump tornou quase impossível alegar intenções nobres para a operação militar.

O Nobel de Economia Paul Krugman escreveu ontem que a operação militar americana não seguiu o figurino da doutrina Monroe: “Trump não estava buscando uma mudança de regime, pelo menos não de forma fundamental. Ele é mais como um chefe da máfia tentando expandir seu território…”

A grande contribuição do governo Trump-2 está sendo tirar a máscara de justiceiro do tio Sam. Para o bem ou para o mal,  Donald Trump acabou de vez com a grande hipocrisia americana.

Petronio Filho

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O Alarmismo Fiscal da Faria Lima

No artigo “Risco Fiscal e Cegueira da Política”, Estadão, 27/10/25, o ex-presidente do Banco Central Gustavo Loyola acusou a Constituição de 1988 de ser “a gênese dos problemas fiscais”. A Carta Magna teria sido “pródiga na criação de direitos onerosos”. 

Pouco importa que a Constituição tenha sido redigida por uma Assembleia Nacional Constituinte e expresse a vontade do povo brasileiro. Ela não serve para a Faria Lima. Talvez a próxima Constituição deva ser redigida pela diretoria do Banco Central.

Loyola vai além. Julga-se no direito de cobrar de Lula um “ajuste estrutural das contas públicas”, algo que Lula não prometeu em sua plataforma eleitoral. Loyola sinaliza quem deve pagar o preço. O “ajuste estrutural” vai exigir a revogação de “medidas populistas” como o reajuste do salário mínimo e cortes profundos nos gastos sociais. 

Tal “ajuste fiscal estrutural” seria na prática uma revogação dos “direitos onerosos” denunciados por Loyola e, portanto, uma desobediência à Constituição. 

Alguém precisa informar isso aos Ministros Fernando Haddad e Simone Tebet. Eles tentam vender a Lula o tal “ajuste fiscal estrutural”. Ou seja, Loyola & Cia à boca grande e Haddad e Tebet à boca pequena pedem que Lula traia a Constituição e traia seus eleitores para afastar o abominável “risco fiscal”. 

Ocorre, no entanto, que o “risco fiscal” denunciado por Loyola e economistas do mercado é algo subjetivo. Não é um dado econômico concreto. É o resultado das projeções dos sentimentos, desejos e preconceitos da Faria Lima. 

Os economistas do mercado formam um oráculo pouco confiável, algo que tem sido mostrado ano após ano. Eles erram 95% das projeções, mas não perdem prestígio com a mídia. Tampouco perdem a vaidade e a arrogância. Continuam se achando sábios. 

Loyola denuncia no artigo “pequenos e grandes assassinatos fiscais” que logo trarão “resultados macroeconômicos funestos”. Notaram a linguagem carregada e alarmista? Notaram o dom da profecia? Todos eles fazem isso. Ignoram o presente e projetam um futuro distópico (se o governo for de esquerda) ou utópico (se ele for de direita). 

O alarme fiscal de Loyola reflete o mundo real? Vejamos. O Brasil de Lula aumentou o crescimento econômico, reduziu a inflação, diminuiu a desigualdade e reduziu o desemprego a um mínimo histórico. E fez tudo isso cumprindo a meta do arcabouço fiscal. 

Como está a política fiscal do Brasil comparada com a do resto do mundo? Vou citar dados internacionais sobre o Déficit Primário do Governo Geral. Minha fonte é a última edição (15/10/25) do Monitor Fiscal do FMI. 

Resultado Primário do Governo Geral como percentagem do PIB em 2024:

Média Geral -3,5%,

Brasil -0,2%, 

Ásia -5,7%,

Europa -2,7%, 

G20 Emergente (inclui BRICS) -4,1%.

Os dados mostram que o Brasil é um exemplo internacional de austeridade fiscal, como diz André Roncaglia, representante brasileiro no FMI. Isso não é tão bom quanto parece. 

O conceito de resultado primário utilizado no Brasil é rigoroso demais, pois trata os investimentos do governo como despesa. Ele amarra as mãos do governo. O Brasil é pobre e precisa de investimentos para crescer. 

O Arcabouço Fiscal do Haddad procura atender ao lobby austericida da Faria Lima. Outra concessão foi a escolha da diretoria do Banco Central. O presidente do BC, Gabriel Galípolo, é mais altista de juros do que Campos Neto. Nem assim os farialimers ficaram satisfeitos. Vivem a atacar o governo Lula, exigindo mais cortes. 

O Boletim do Tesouro Nacional publica dados sobre o Resultado Primário do Governo Central. As médias anuais dos últimos governos, como percentual do PIB, foram: 

Lula 1 e Lula 2, 8 anos:  2,1%,

Dilma, 5 anos: 0,6%,

Temer, 3 anos: -2,1%,

Bolsonaro, 4 anos: -2,7%. 

É preciso fanatismo para examinar as estatísticas oficiais e não perceber que Lula e Dilma foram mais austeros do que Temer e Bolsonaro. Mas Gustavo Loyola conseguiu fisgar um ano isolado que confirma seus preconceitos. Em 2022, Bolsonaro obteve superávit primário do governo central de 0,5% do PIB. 

Aquele superávit foi criticado pelo TCU e pelo Ipea, entre outras instituições.  “Receitas extraordinárias mascararam deterioração estrutural”, Ministro Bruno Dantas (Acórdão 2.669/2023). “Gastos eleitoreiros foram financiados por receitas de petróleo, não por ajuste fiscal”, IPEA. 

Gustavo Loyola não é exceção. Pesquisas Genial/Quaest mostraram que 96% dos “analistas” da Faria Lima desaprovam Lula e 82% votaram em Bolsonaro. As concessões de Lula à Faria Lima me fazem lembrar a advertência de Churchill aos que tentaram acalmar Hitler: “O apaziguador é alguém que alimenta um crocodilo esperando ser devorado por último”.

Petronio Filho

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Foto Amanda Perobelli/Reuters via BBC

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Sistema Nacional de Pesquisa Agropecuária: resgate dos debates no Congresso Nacional

O Núcleo de Estudos e Pesquisas da Consultoria Legislativa do Senado Federal publicou o Texto para Discussão nº 352, intitulado “Sistema Nacional de Pesquisa Agropecuária: resgate dos debates no Congresso Nacional”, de autoria de Marcus Peixoto e Ana Célia Castro. O estudo resgata os debates legislativos sobre o Sistema Nacional de Pesquisa Agropecuária (SNPA) e analisa como o Brasil pode fortalecer sua rede de pesquisa para enfrentar desafios como mudanças climáticas, segurança alimentar e inovação tecnológica. Mostra que o SNPA, criado em 1991, nunca funcionou de forma articulada, sofre com falta de recursos e carece de um marco legal atualizado.

O que é o SNPA? 
O ChatGPT disse:

O Sistema Nacional de Pesquisa Agropecuária (SNPA) foi instituído em 1991 para integrar e coordenar as atividades de pesquisa agropecuária desenvolvidas por instituições públicas e privadas em todo o país — incluindo a Embrapa, universidades, institutos federais e organizações estaduais de pesquisa. Foi criado com o objetivo de articular esforços, recursos e conhecimentos voltados à geração de ciência, tecnologia e inovação (CT&I) para o desenvolvimento sustentável da agricultura e da pecuária brasileiras. O estudo mostra que, embora o SNPA tenha sido formalmente criado, nunca chegou a funcionar como um sistema integrado. Segundo os autores:

Carece de um marco legal específico e atualizado que defina sua governança, fontes de financiamento e mecanismos de cooperação”

Porque o SNPA importa? 

O SNPA é essencial para produzir conhecimento científico e tecnológico que permita ao Brasil aumentar a produtividade com menor impacto ambiental, especialmente diante das mudanças climáticas. A pesquisa agropecuária é o que possibilita mais alimentos, com melhor qualidade e menor custo, reduzindo desigualdades e combatendo a fome.

O país é líder mundial em agricultura tropical e na agricultura de baixo carbono. Para manter essa posição, precisa investir em inovação científica e tecnológica. Um SNPA fortalecido articula governo, universidades, Embrapa, OEPAs e setor privado, criando sinergias entre pesquisa e políticas agrícolas, ambientais e de desenvolvimento regional. Ao apoiar pequenos produtores e a agricultura familiar, o sistema contribui para gerar renda, inclusão e equilíbrio regional, pilares de um desenvolvimento sustentável.

O que propõe o estudo? 

Os autores defendem a modernização e efetivação do SNPA, com um novo marco legal e estrutura de governança e financiamento capazes de unir ciência, inovação e desenvolvimento sustentável no campo.

Hoje, o Brasil investe apenas 1% a 1,5% do PIB em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) — bem abaixo de países como os Estados Unidos (3,5%) e a Coreia do Sul (5%). Para avançar, é preciso ampliar os investimentos em ciência, tecnologia e inovação, pilares do progresso econômico e ambiental.

Há duas propostas legislativas que tratam do SNPA de forma ampliada ao tratar sobre a temática. 

PL nº 6.417, de 2019 – Reestruturação do SNPA

Originado no Senado Federal, a partir de debates de 2017 e 2019 na Comissão de Agricultura e Reforma Agrária. O projeto cria mecanismos de governança e planejamento plurianual, com metas e indicadores para orientar as ações do sistema, e busca integrar pesquisa, assistência técnica, inovação e extensão rural, com atenção especial aos pequenos produtores. É um avanço, mas não resolve a lacuna de financiamento — ou seja, reestrutura o sistema, mas sem garantir recursos estáveis para que ele funcione plenamente.

 PL nº 380, de 2025 – Financiamento da Pesquisa Agropecuária

Propõe a criação de um fundo nacional específico para a pesquisa agropecuária, com fontes diversificadas de recursos, incluindo orçamento público, parcerias privadas e cooperação internacional. O PL 380/2025 é considerado complementar e essencial: enquanto o PL 6.417/2019 cria a estrutura, o PL 380/2025 dá o suporte financeiro para que o sistema funcione.

Em síntese 

O estudo propõe modernizar e tornar efetivo o Sistema Nacional de Pesquisa Agropecuária, criando um novo marco legal e uma estrutura de governança e financiamento capaz de unir ciência, inovação e desenvolvimento sustentável no campo.

Com um SNPA forte e moderno teremos a base para um campo mais inovador, inclusivo e sustentável, onde a ciência e a política pública trabalham juntas para garantir soberania alimentar, equilíbrio ambiental e desenvolvimento econômico para o Brasil.

Para saber mais acesse:

https://www12.senado.leg.br/publicacoes/estudos-legislativos/tipos-de-estudos/textos-para-discussao/td352

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Reestruturação salarial no Senado em 2026: entre garantias constitucionais e “atalhos”

O Senado Federal enfrenta um momento delicado e decisivo na discussão sobre a reestruturação remuneratória dos seus servidores para o ano de 2026.

O direito à revisão geral anual de remuneração, estabelecido no artigo 37, inciso X, da Constituição, visa preservar o poder de compra dos servidores públicos, assegurando que os reajustes ocorram anualmente, sem distinção de índices, e tenham paridade entre ativos e inativos. Entretanto, desde 1998, esta revisão só foi concedida formalmente em 2002 e 2003, com índices irrelevantes para a recomposição real dos salários desgastados pela inflação.

A ausência do atendimento dessa garantia tradicional levou os órgãos públicos a adotarem reestruturações remuneratórias que, apesar do nome, apenas buscavam compensar perdas, num processo institucionalizado de burla à garantia de isonomia de reajustes para esse fim.

A situação agravou-se entre 2019 e 2022, em parte devido a medidas legais restritivas, como a Lei Complementar nº 173/2020, que proibiu reajustes até o fim de 2021, e a Emenda Constitucional nº 109/2021, que elevou o controle da despesa com pessoal ao patamar de um valor absoluto, em nome da “sustentabilidade da dívida pública”.

André Lara Resende, o maior economista brasileiro vivo, argumentou que o Brasil não tem problema de sustentabilidade da dívida pública, pois ela é toda em moeda nacional e  menor do que dizem. Medida por critérios justos, a dívida pública seria reduzida em 28% do PIB  O Brasil tem, de fato, um histórico de crises de endividamento, mas todas elas estiveram ligadas à dívida externa.

Articulistas denunciam um “descontrole fiscal”, que respaldaria medidas de arroxo fiscal. As estatísticas oficiais os desmentem. O governo federal fechou 2024 com déficit primário de 11 bilhões, menos de 0,1% do PIB, um dos mais baixos do mundo. Somos um modelo internacional de austeridade fiscal, e os que dizem diferente estão equivocados.   

As causas dos aumentos da dívida pública estão nas despesas não-primárias, ou seja, financeiras. As taxas básicas de juros reais de 10% ao ano são fixadas pelo Copom, colegiado da diretoria do Banco Central, em nome de metas irrealistas de inflação fixadas pelo Conselho Monetário Nacional. Os juros reais de 10% exercem pressão sobre as finanças públicas, levando à contínua cobrança de medidas compensatórias de “ajuste fiscal”. Contudo, a despesa com pessoal, no Governo Federal, atinge pouco mais que a metade do limite permitido pela Lei de Responsabilidade Fiscal, e vem caindo ano a ano. Em 2026, ela será de menos de 3,4% do PIB.

Mas, enfim, voltando à defasagem salarial dos servidores, somente a partir de 2023 foram retomados reajustes visando compensar a inflação acumulada. De janeiro de 2015 a dezembro de 2024, o IPCA totalizou 74,88%. Para as carreiras do Poder Legislativo e Judiciário, os reajustes totalizaram 44,67%. Assim, apenas para recompor a totalidade da perda no período, e já computado o reajuste concedido em fevereiro de 2025, o reajuste adicional, necessário, seria de 21%.

De janeiro de 2019 a dezembro de 2024, o IPCA acumulado foi de 39,2%; porém, os reajustes concedidos, também já computado o reajuste de fevereiro de 2025, foram de 24,61%.

Não há reajuste previsto em lei para 2026, último ano da legislatura e do atual mandato presidencial, mas já tramitam proposições legislativas concedendo reajustes para servidores do Poder Judiciário de 8% em 2026, 8% em 2027 e 8% em 2028; e no Tribunal de Contas da União, reajustes diferenciados, expressivos, que, sem contar “parcelas indenizatórias”, totalizarão, apenas em 2026, reajustes médios de 40% a 43%, conforme a situação do servidor em termos de titulação.

Situação ainda mais dramática é a da perda inflacionária sobre os subsídios dos Ministros do STF, que são o “teto” remuneratório, hoje no valor de R$ 46.366. O teto, apenas para recuperar, em agosto de 2025, o mesmo valor que tinha em janeiro de 2006, quando era de R$ 24.500,00, deveria valer, pelo menos R$ 70.850. Os Deputados Federais e Senadores, em 2006, percebiam apenas R$ 12.847,20 e somente em 2009 foram equiparados aos Ministros do STF. Desde então, vigora a “paridade”.

Frente a essa perda, que afeta a toda a magistratura e ministério público, em vista do disposto no art. 93, V da Constituição, que prevê que os subsídios dos Ministros dos Tribunais Superiores corresponderão a noventa e cinco por cento do subsídio mensal fixado para os Ministros do Supremo Tribunal Federal e os subsídios dos demais magistrados serão fixados com diferença de cinco por cento entre os cargos, passaram a ser buscadas soluções “criativas”, de duvidosa legalidade.

A relevância do tema ultrapassa o âmbito do Senado. A defasagem do teto remuneratório afetou também o Poder Judiciário e o Ministério Público, suscitando debates sobre reajustes e reestruturações de carreira que impactam milhões de servidores em todo o país.

Recentemente, propostas foram apresentadas para aumento do teto e parcelamento de reajustes em três anos, e para reestruturações consideradas necessárias para atualização e valorização dos servidores.

No Poder Executivo, foram consignados no PLOA, em reservas próprias de contingência, R$ 10,3 bilhões para aumentos de despesas com pessoal em 2026, mas permanece a política de negação da revisão geral anual, que depende de projeto de lei de sua iniciativa

Projeto de lei enviado ao Congresso pelo Presidente do Tribunal de Contas contempla reajustes elevados já em 2026 de 43%, em média e, ainda, a criação de uma “Indenização por Regime Especial de Dedicação Gerencial”, a ser concedida exclusivamente aos servidores efetivos da Secretaria do Tribunal investidos em função de confiança, no percentual de até 25% da remuneração bruta mensal

Projeto de lei do Poder Judiciário prevê reajustes de 8% em 2026, 2027 e 2028 para seus servidores, além de alteração em gratificação de qualificação, com impacto estimado, em 2026, de R$ 2,7 bilhões.

No Senado, em fevereiro de 2025, o Ato do Presidente nº 9 seguiu um caminho preocupante, com a instituição, sem respeito aos limites legais, de uma indenização por “acúmulo de acervo administrativo, institucional ou jurídico” para servidores “no exercício de função relevante singular”.

Cogita-se, no momento, a proposição de pequeno reajuste de vencimentos em 2026 e a extensão dessa “indenização” para servidores ativos em cargos comissionados e funções de confiança.

Há no Senado 488 servidores, de um total de 1.980 ativos, investidos em FC-03 ou superiores, que poderiam vir a perceber essa indenização, mas sem contemplar a totalidade dos ativos, efetivos ou comissionados, e aposentados e pensionistas, comprometendo a paridade.

A proposta orçamentária do Senado para 2026 revela um aumento de 8,95% na despesa com pessoal, mas as autorizações previstas no Anexo V do PLOA apenas contemplam despesas com provimentos de cargos.  Com esse acréscimo percentual seria possível, sem qualquer dificuldade, conceder o mesmo reajuste de 8% a partir de julho de 2026, previsto para o Poder Judiciário, com impacto de cerca de R$ 204 milhões; ou um reajuste de 8% a partir de fevereiro, com impacto de cerca de R$ 360 milhões.

Em 2026, o teto de despesas do Senado fixado nos termos da Lei Complementar nº 200, de 2023, é de R$ 6,649 bilhões, ou R$ 491,6 milhões a mais do que em 2025. Se 77% desse montante – que corresponde à parcela das despesas com pessoal do Senado em 2025, frente ao seu orçamento total – fossem destinados ao reajuste, pelo menos R$ 377 milhões poderiam ser empregados para um reajuste com efeitos gerais, garantindo igualdade de tratamento a ativos, aposentados, pensionistas, titulares de cargos em comissão e, inclusive, os Senadores.

Contudo, “atalhos” como o da criação de “parcelas indenizatórias” têm sido usados como forma de burla ao teto de remuneração constitucional, dado que seu valor se acha achatado. E eles servem, também, para burlar a garantia constitucional da paridade. A consequência é um cenário fragmentado e desigual, em que servidores ativos têm acesso a vantagens que não são extensivas aos inativos.

O pacto constitucional que garante a paridade para os aposentados que ingressaram até a vigência da EC 103/2019 é desconsiderado, o que pode prejudicar direitos adquiridos e a expectativa de direito dos servidores do Senado e da administração pública em geral. O artigo 40 da Constituição e suas regras de transição reforçam a importância da paridade, que deve ser respeitada para assegurar equilíbrio e justiça ao sistema de remuneração.

Porém, críticas à proliferação das chamadas “parcelas indenizatórias” ganham força, na mídia e na sociedade, apontando que, além de vulnerar o teto, essas práticas podem comprometer os princípios da legalidade, moralidade administrativa e transparência, além de gerar desequilíbrios remuneratórios.

A política de valorização do servidor deve, portanto, lastrear-se em critérios legítimos, respeitando a lei e buscando a equidade entre servidores de diferentes gerações e poderes.

Em um momento em que o orçamento público enfrenta restrições e demandas sociais crescentes, encontrar soluções justas e sustentáveis para a remuneração dos servidores é indispensável para a eficiência e legitimidade do serviço público.

É urgente a necessidade de debate aberto e transparente entre os Três Poderes para corrigir distorções, assegurar direitos e preservar o Estado de Direito, e cabe-nos alertar para os perigos das decisões equivocadas e para a necessidade constante da vigilância cidadã e institucional. A valorização do serviço público está intrinsecamente ligada à garantia de justiça e equilíbrio no tratamento salarial dos seus membros, ativos e inativos.

Luiz Alberto dos Santos

Consultor Legislativo – aposentado – do Senado Federal/Administração Pública

Advogado, Mestre em Administração e Doutor em Ciências Sociais

Professor Colaborador da EBAPE/FGV

Ex-Subchefe de Análise e Acompanhamento de Políticas Governamentais da Casa Civil/PR (2003-2014).

Petronio Portella Nunes Filho

Consultor Legislativo – aposentado – do Senado Federal, formado em Ciências Econômicas pela Universidade de Brasília (UnB), com Mestrado na mesma área pela University of  Minnesota e Doutorado pela Universidade de Campinas (Unicamp).

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